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BIOCLIMATOLOGIA RELACIONADA A CRIAÇÃO DE AVESTRUZES STRUTHIO CAMELUS (UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA).
Autor
José Ricardo Mattos Varzone
Instituição
Professor Assistente de Anatomia da Faculdade de Medicina Veterinária
de Leme. Orientador de Estágios e Atividades Complementares de Medicina
Veterinária. Mestrando em Nutrição Animal USP-SP. Médico
Veterinário.
Resumo
O presente trabalho tem por Finalidade o estudo comparativo na criação
racional de avestruzes no ambiente de origem, e sua similaridade climática
relacionada a algumas regiões brasileiras; infocando a alta adaptabilidade
da espécie no Brasil, em relação ao clima, tipo de
alimentação em regime de pastagens e taxa reprodutiva; demonstrando
a viabilidade da estrutiocultura comercial no Brasil.
Palavras-chave
Bioclimatologia; avestruzes; criação comercial; viabilidade.
Introdução
I - Características Morfologicas
O Avestruz é a maior ave existente, cuja origem data do período
pré-histórico(período Cretáceo), portanto um
animal extremamente antigo no planeta; pertence a única espécie
vivente da família Struthionidae, que apresenta doze espécies
extintas, metade das quais já descritas em fósseis encontrados.
(Carrer e Kornfeld, 1999 a).
Uma ave de grande porte, patas fortes, e grande capacidade de sobrevivência
no deserto; pode chegar a 3 (três) metros de altura, pescoço
grande e longo, ideal para o hábito de pastejo. Corpo oval e coberto
por penas, asas reduzidas, não possuem glândula uropigiana
sendo inábeis na água e ainda não apresenta quilha,
com externo largo e plano, serve como escudo protetor, em função
dos chutesem relação a outras aves adultas, (Carrer
e kornfeld, 1999 a).
São aves de grande acuidade visual, audição bem desenvolvida,
e grande capacidade de locomoção rápida, machos adultos
são maiores que as fêmeas, vivem por cerca de 60 a 70 anos
em nosso ambiente, tem forte dimorfismo sexual.
O período reprodutivo varia em função das chuvas e
fotoperiodismo, a estação seca se caracteriza melhor para
a postura destas aves, sendo que em condições naturais põem
de 19 a 25 ovos por ano, com os ovos pesando (entre 1000 a 2000 gramas),
e a incubação durando por cerca de 6(seis) semanas, e os machos
revezam no ninho com as fêmeas. (Carrer e Kornfeld, 1999 a).
II - Fotoperiodismo
nas Aves
A atividade reprotutiva em muitas espécies de aves é controlada
pelos estímulos ambientais que sincronizam as estações
de reprodução com a época ótima do ano para
a sobrevivência da prole, a atividade sexual aumenta nos dias mais
longos e diminui nos dias mais curtos.
Os níveis circulantes de LH e FSH aumentam com apenas um dia de exposição
aos fotoperíodos longos(Follett e Robinson, 1980).
Experimentos mais sofisticados demonstraram que os elementos fotossensíveis
que regulam a resposta fotossenxual situam-se no hipotálamo. Galinhas
e perus são responsivos à estimulação pela luz,
e a regulação por luz artificial, é um instrumento
comum usado para retardar ou estimular a reprodução. Algumas
aves silvestres, permanecem sexualmente imaturas por tempo indefinido a
menos que sejam expostas a um fotoperíodo apropiado.(Allen, R. S.,
1980 ).
III -
Endocrinologia Reprodutiva
A reprodução em aves caracteriza-se pela ovoviviparidade.
Embora esse tipo de reprodução seja encontrado em várias
espécies de répteis, ele é ubíquo entre as aves.
A prole potencial sai do corpo da mãe após um período
muito curto de desenvolvimento embrionário e a parte principal de
seu desenvolvimento ocorre fora do organismo materno. O ovo, ao ser expelido,
consiste em substâncias nutritivas na gema e na clara, água,
várias membranas protetoras e uma casca protetora dura. Além
disso, quando ocorre a postura do ovo fecundado, ele contém um embrião
na fase de gástrula.
A hipófise anterior da ave elabora o mesmo conjunto de hormônios
que a glândula hipófise de mamíferos ( Goldsmith e Follett,
1980).
Os hormônios luteinizantes (LH), foliculoestimulante (FSH), tireoestimulante
(TSH), a prolactina (PRL), os hormônios somatotróficos ( do
crescimento STH ou GH) e adrenocorticotrófico (ACTH), foram, cada
um, isolados e purificados à partir das glândulas hipófises
de uma ou mais espécies de aves.
Apesar, de se ter conseguidos respostas em relação ao LH,
à PRL e ao GH do peru; ao FSH da galinha e ao ACTH do peru, e a disponibilidade
dessas técnicas ocasionou progressos rápidos na nossa compreenção
da endocrinologia reprodutiva das aves, existem ainda muitas lacunas em
nosso conhecimento. Sharp em (1975), mostrou que o nível de hormônio
luteinizante (LH) no plasma aumenta consistentemente até imediatamente
antes da primeira oviposição e também sugeriu que esta
diminuição esta associada com o nível aumentado de
esteróide plasmático, provocado pelo desenvolvimento dos folículos.
A secreção de prolactina (PRL) aumenta mediante a administração
do hormônio liberador de tireotrofina (TRH) em aves. Os hormônios
neuro-hipofisários das aves tem ações anti-diurética,
ocitócica e vasoativa. Ainda que esses hormônios tenham muito
em comum em todos os vertebrados, há distintas e importantes diferenças
quanto a sua composição de aminoácidos.
Os princípios ativos liberados a partir da hipófise posterior
das aves são arginina vasotocina (AVT) e mesotocina (MT) (George,
1980).
A (AVT) é o hormônio anti-diurético normal em aves e
também é mais ativo do que o (MT) para induzir contrações
uterinas. (Allen, R. S., 1980).
As gônadas das aves produzem hormônios esteróides que
atuam em todo o corpo, afetando o desenvolvimento do sistema de ductos reprodutivos,
apêndices da cabeça tais como a crista e a barbela, penas,
emissão de sons, composição do sangue, absorção
de nutrientes e comportamento. Os hormônios esteróides são
produzidos pelo ovário esquerdo no início da embriogênese
e os estrógenos presentes podem ser responsáveis pela supressão
do ovário direito nesse período. (Guichard el all, 1977).
O esteróide testicular predominantemente é a testosterona,
enquanto o ovário secreta estrógeno, progesterona e testosterona.
A medida que as aves se aproximam da maturidade sexual elas se tornam foto-estimuladas,
e esta modificação é responsável pelo futuro
desenvolvimento sexual, (Murton & Westwood, 1977).
Aqui são destacadas as funções principais dos estrógenos:
abertura da placa oclusora do oviduto, aumenta a captação
de cálcio no intestino, ação sobre o fígado
para produzir as lipoproteínas específicas da gema, aumentam
a deposição de gordura corpórea, estimulam o crescimento
do oviduto, provocam a expansão dos ossos púbicos, auxiliam
na esteriorização do comportamento nas fêmeas e produção
de gonadotrofinas.
Obs: a progesterona também esta envolvida no metabolismo do cálcio.
A progesterona parece ser um produto das células granulosas do folículo
pré-ovulatório, porém, diferentemente dos mamíferos,
as células granulosas dos folículos pós-ovulatórios
em aves podem ser incapazes de produzila (Dick el. Al., 1978).
IV - Ciclos
Reprodutivos da Fêmea
O ciclo ovulatório da galinha doméstica, dura cerca de 25
a 26 horas e os ciclos podem ocorrer por muitos dias sem interrupção.
A ovulação e a postura não estão absolutamente
relacionadas, mas esses eventos em geral tem correlação muito
alta. Até 11 a 20 % dos óvulos ovulados são liberados
dentro da cavidade abdominal; visto que não entram no oviduto, nenhum
ovo resulta.
O LH é que desencadeia o ciclo ovulatório das fêmeas
de aves, é o hormônio diretamente responsável pela indução
da ovulação.
O aumento da secreção de progesterona, testosterona e estradiol
ocorre durante cada ciclo ovulatório e ao mesmo tempo que a onda
de LH.
A estreita relação temporal entre os aumentos pré-ovulatórios
de LH, estradiol, progesterona e testosterona circulantes torna difícil
determinar as relações causais entre esses hormônios.
No período pré-ovulatório, observam-se níveis
crescentes de ambos os hormônios e pode-se visualizar uma cascata
desses hormônios com um pequeno aumento no LH causando elevação
dos níveis sanguíneos de progesterona que, por sua vez, evocam
a liberação de mais LH.
A testosterona também exerce um feed-backpositivo sobre
o sistema hipotalâmico-hipofisário, provocando liberação
de LH.
Ela também bloqueia a produção de gonadotrofinas em
níveis elevados. Assim, a testosterona também pode ser um
fator regulador fundamental do LH no ciclo ovulatório das aves.
V - Machos:
Testículos, Espermatogênese e Regulação Endócrina
A anatomia dos órgãos reprodutivos das aves diferencia-se
dos mamíferos em vários aspéctos importantes. (Lake,
1971).
Nos machos de todas as espécies de aves, os testículos localizam-se
no interior do corpo e não em saco escrotal. Nas aves domésticas,
eles situam-se em posição imediatamente anterior aos rins
e são fixados à parede dorsal do corpo. Os testículos
das aves são maiores, em relação ao peso corporal,
do que os dos mamíferos, e em muitas espécies há assimetria
bilateral, sendo a gônada esquerda maior do que a direita.
Os falos do galo e dos machos de muitas outras aves são pequenos
e não funcionam como órgãos para introdução.
O sêmen é transferido para a fêmea pelo contato entre
falo rudimentar e a vagina evertida. Patos e gansos, entretanto, tem pênis
bastante grandes e o acasalamento é realizado através da penetração.
O suprimento de sangue se dá pela artéria renal anterior e
uma artéria testicular variável, a disposição
dentro dos testículos (vasos); são mais simples que nos mamíferos
e não existe um plexo pampiniforme (Waites, 1970). Contrariamente
à disposição nos mamíferos, os túbulos
seminíferos não são grupados em lóbulos evidentes
circundados por tecido conjuntivo, porém se ramificam e se anastomosam
livremente dentro da túnica albugínea (Marvam, 1969).
Os túbulos seminíferos dos machos imaturos são delineados
por uma única camada de células de sertoli e espermatogônia
pedunculares, enquanto que os machos adultos apresentam túbulos de
formas irregulares delineados por um epitélio germinativo de múltiplas
camadas. (Hafez E. S., 1988).
As espermatogônias dão origem aos espermatócitos primários,
espermatócitos secundários e espermátidas; estas últimas
eventualmente se metamorfoseiam em espermatozóides. (Lake, 1956;
Malntosh & Porter, 1967).
O tempo para a maturação dos espermatozóides no testículos
depende da espécie aviária.
Usualmente as espermatogônias se multiplicam ao redor da Quinta semana
após o nascimento e os espermatócitos primários aparecem
cerca da Sexta semana. ( Hafez E. S., 1988).
Pastagens
e Forrageiras para avestruzes
A preferência alimentar dos avestruzes é para plantas dicotiledôneas,
a exemplo das leguminosas, todavia, a maioria absoluta das pastagens existentes
nas nossas condições é baseada em capins ( monocotiledôneas),
que tambem são bem consumidos. A alfafa é considerada como
alimento de exelente qualidade e aceitabilidade para avestruzes de todas
idades, em pastejo, forragem conservada e suplementação verde
no comedouro. Os animais jovens podem pastejar essa planta desde os primeiros
dias de vida.
Devido a alfafa não ser muito resistente ao pisoteio, e ser muito
exigente quanto a qualidade do solo, deve-se buscar suas variedades para
um maior sucesso.
Na prática se utilizar somente a alfafa como alimento para as avestruzes,
1 hectare seria suficiente para alimentar 8 a 10 avestruzes. Em geral os
animais acima de 3 meses ficam em piquetes de pasto com por exemplo braquiária
e são suplementados com alfafa fresca no cocho, 2 a 4 vezes ao dia.
Já os animais adultos em manutenção podem ser alimentados
somente com forragem e a suplementação mineral. O feijão
guandu e a leucena de fomação arbórea, são fontes
de utilização de avestruzes, principalmente como banco de
proteína. A centrosema, o siratro e a soja-perene, são utilizadas
para confecção de fenos.
A estação reprodutiva pode ser iniciada e/ou estimulada por
aumento de proteína e sobretudo, por fibra das dietas, 3 a 4 semanas
antes. Pastagens naturais com ampla variedade de plantas parecem ter um
efeito positivo na reprodução.
Pricipais
Espécies de Plantas Forrageiras para Avestruzes
Leguminosas: alfafa, feijão-guandu, estilosantes, centrosema, siratro,
soja perene.
Gramíneas: capim pangola, capim-de-rhodes, grupo do cynodon, grupo
das braquiárias, capim andropogon, capim jaraguá.
O Meio
Ambiente de Origem do Avestruz e a Similaridade com as Condições
no Brasil
O interesse despertado pela estrutiocultura nos ultimos anos, no mundo e
em especial no Brasil, faz com que haja necessidade de conhecermos melhor
o ambiente de origem dessas aves, possibilitando melhor avaliação
do seu potencial de adaptação e proporcionando melhores chances
de sucesso na criação dessas aves no brasil, na escolha dos
melhores locais para sua criação.
Os avestruzes ainda mantém grande vinculação às
condições ambientais silvestres, por não sofrerem forte
seleção genética, voltada ao manejo zootécnico.
Portanto, o ambiente tem grande influência na determinação
de aspectos ligados ao desenpenho produtivo, sobretudo na reprodução
e criação de filhotes e animais jovens.
O Ambiente
de Origem
O continente africano é aquele onde o clima se apresenta mais uniforme.
Exceto nas costas do mediterrâneo e no deserto, a temperatura revela
variações sazonais pouco expressivas, com médias anuais
superiores a 20ºC, definindo um clima tipicamente tropical.

Apesar
de ainda existirem algumas populações de avestruzes selvagens
distribuídas pelo continente, é na região sul que se
concentram os grandes criadouros, portanto os animais utilizados nas criações
comerciais de todo o mundo derivam, basicamente, dessa região de
origem. A África do Sul, o clima é um fator geográfico
decisivo, condicionado tanto o sistema de erosão, como a vegetação
e as formas de aproveitamento da terra; possui um clima mediterrâneo(chuvas
no inverno, seca no verão). Contudo, as massas marítimas vão
perdendo umidade em seu percurso continental, proporcionando uma pluviosidade
muito variável.
Quando se pensa em produção de avestruzes no Brasil, é
impossível não fazer comparações com as condições
ambientais dos maiores países produtores africanos. É certo
que encontramos muitas similaridades ambientais entre essas duas situações.
Um exemplo ilustrativo pode ser dado pela excepcional adaptação
que as gramíneas forrageiras africanas tiveram, ao serem aqui introduzidas,
particularmente nos cerrados.
A proximidade de latitudes com o centro de distribuição de
material genético africano, as condições climáticas
e a estrutura de pastagens já instaladas, fazem que os cerrados brasileiros
apresentem grande potencial para a estrutiocultura.
O Meio
Ambiente Brasileiro e os Cerrados
O cerrado se localiza predominantemente no planalto central do Brasil e
institui-se como a Segunda maior formação vegetal brasileira,
sendo a primeira a floresta Amazônica. É uma savana tropical
coberta por uma vegetação rasteira, formada principalmente
por gramíneas.
De maneira disjunta, formando ilhas, as formações de cerrado
distribuem-se pelos estados do Amazonas, Amapá, Roraima, Alagoas,
Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, São Paulo e Paraná.
No sul do país, aparece um clima frio sujeito as frentes frias, sujeitando
a criação dessa espécie a cuidados intensivos principalmente
na criação dos filhotes.
O sertão do nordeste, megatérmico seco, ou tropical semi-árido,
com baixos índices pluviométricos, torna o clima propício
a criação de avestruzes, todavia a produção
de alimentos está condicionada à exitência de sistemas
de irrigação; na impossibilidade desta os custos com alimento
crescem demais e torna diminuida a possibilidade de sucesso na criação
de categorias mais jovens.
O clima do cerrado é do tipo tropical estacional, onde mais de 90%
das precipitações ocorrem de outubro a março, demarcando
duas estações climáticas distintas: a chuva e a seca.
Se encontra numa posição intermediária entre a floresta
Amazônica e a caatinga, em termos pluviométricos. Pela descrição
das caracteristicas do cerrado, a viabilização natural da
produção racional de avestruzes, com a formação
de fazendas especializadas, é plenamente plausível.
Primeiramente, porque, nos cerrados, existiam grandes grupos de emas, parente
próxima dos avestruzes, o que também pressupõe vantagens
adaptativas, quando se introduziu essa nova espécie.
Em segundo lugar, as temperaturas e as estações seca e chuvosa
bem definidas favorecem a produção de alimentos, ao contrário
de outras áreas, como nas caatingas, onde a pluviosidade é
limitante, apesar de a falta de chuvas pode estimular a reprodução
dos avestruzes.
Relação
Clima x Fotoperíodo x Reprodução
O fotoperíodo ou período de horas-luz está estreitamente
ligado à reprodução. A ave é estimulada por
períodos, quando existe uma proporção de luz maior
durante o dia, para que os órgãos responsáveis pela
liberação de hormônios reprodutivos iniciem a sua função.
Embora ainda não adequadamente quantificada, tem-se notado, na prática,
que, para avestruzes, a importância do fator clima sobrepõe-se
à ação do fator fotoperíodo. Por sua vez, o
estímulo gerado pelo fotoperíodo está ainda vinculado
às combinações de estímulos de ordem nutricional
e à disponibilidade de alimento no meio ambiente.
A estação de reprodução dá-se normalmente,
nos períodos de baixa pluviosidade. No caso do Brasil, este período
depende da região específica onde se localiza o criadouro,
como anteriormente mencionado. Se na estação de reprodução,
houver uma inversão destas condições climáticas,
por exemplo, uma ocorrência de frente fria com muita chuva, poderá
acontecer uma interrupção na postura de ovos. A presença
ou não de umidade tem-se mostrado mais determinante do que o fator
temperatura.

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