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COMPORTAMENTO SOCIAL DE UM GRUPO DE LOBOS GUARÁ (Chrysocyon brachyurus) EM CATIVEIRO.
Bruno Ferreira¹ (brunof@rc.unesp.br)
Fabrício Pinheiro da Cunha¹ (fpcunha@rc.unesp.br)
Instituição
¹Universidade Estadual Paulista (UNESP) - Rio Claro
INTRODUÇÃO
O Lobo Guará (Chrysocyon brachyurus) é o maior canídeo da América do Sul, típico das regiões de campos limpos, campos sujos e cerrados. Possui o hábito noturno-crepuscular, gastando cerca de 8 horas locomovendo-se à noite. Durante o dia esses lobos descansam, sempre sozinhos, em mata ou nascentes de rios movendo-se muito pouco. Antes do pôr-do-sol eles deixam o local de descanso para forragear. Muitos estudos os caracterizaram como onívoros oportunos, o que os levam, com a destruição de habitat, a atacar criações domésticas nas proximidades da zona rural. Casais ocupam em média áreas de 30 Km², e raramente são vistos juntos, exceto durante a época de reprodução. Os territórios são marcados por locais específicos de defecação e marcos que representam barreiras físicas (rios, estradas). Animais do mesmo sexo nunca sobrepõe seus territórios. Existem poucas observações de filhotes in situ. A maioria das informações é anedota, mas sugere que as fêmeas e possivelmente o macho defendam os locais de ninho por um período de tempo após o parto. Observações de lobos cativos mostram que o macho participa da criação dos filhotes regurgitando alimento e arrumando os filhotes.
OBJETIVOS
O trabalho buscou a caracterização do comportamento social do grupo em questão, baseando principalmente nos displays agonísticos, sociais e parentais entre os indivíduos. Paralelamente a ONG, responsável pelos Lobos Guará, não possuía uma exata compreensão do comportamento social do grupo, acreditando, baseada em algumas observações ao acaso, que a fêmea se mostrava agressiva com os filhotes, enquanto que o macho demonstrava maiores cuidados parentais. Dessa forma o estudo se propôs a esclarecer tais evidências.
METODOLOGIA
As observações foram realizadas na Associação Mata Ciliar, uma ONG para a recuperação e reabilitação de animais silvestres, em Jundiaí-SP. O grupo estudado era composto por um macho adulto, uma fêmea adulta, e seus quatro filhotes. As observações, realizadas em Outubro de 2003, envolveram 19 horas de observação do macho, 19 horas da fêmea, e 5 horas de todos os filhotes juntos. Dentro da amostragem todos os comportamentos realizados pelos indivíduos foram registrados e posteriormente quantificados. Para reconhecer espacialmente o deslocamento dos Lobos, o cativeiro foi dividido em áreas, representadas individualmente na quantificação (Figura 1).
 FIGURA 1. DIAGRAMA DO CATIVEIRO: DIVISÃO DE ÁREAS E DESCRIÇÃO DO ENTORNO
O método de amostragem utilizado para os dois adultos previa observações contínuas, organizadas em intervalos de 10 minutos, dentro de blocos de duas a quatro horas, distribuídos da 6:20 às 18:30. O período das 13:00 às 14:50 não foi amostrado uma vez que este representava o período de repouso dos Lobos Guará, sem praticamente nenhuma atividade.
A observação instantânea foi utilizada para os filhotes, onde a cada 5 minutos era registrado o comportamento de cada filhote naquele instante. Quando não visualizados por ambos os observadores, aquele indivíduo era considerado "fora de visão". Foi utilizado um único bloco de 5 horas sem intervalos, no período da tarde.
RESULTADOS
A observação dos comportamentos levaram a elaboração de um etograma, encontrado na Tabela 1.
TABELA 1. ETOGRAMA DO LOBO GUARÁ (Chrysocyon brachyurus)
A partir desses dados foi possível notar que a aproximação entre filhotes e adultos dá-se de forma alternada durante o dia, devido ao fato dos filhotes preferirem a companhia do macho enquanto ele descansa (manhã); e da fêmea durante o período de maior atividade (tarde). O contato dos filhotes, apesar da fêmea ser a única a participar de perseguições, foi maior junto ao macho. Os filhotes perseguiam a fêmea por diversão ou em busca de alimento (Gráfico 1),

mas eram muitas vezes repreendidos com mordidas e gapes. A agressividades contra filhotes foi muito mais freqüente no macho; com a exceção de mordidas e investidas. Contudo a mordida do macho costumava ser mais severa que as da fêmea, que mesmo assim só atacava quando excessivamente importunada (Gráfico 2).

O Gráfico 3 evidencia que mesmo com altas freqüências de agressividade por parte do macho, este número não é tão surpreendente se comparado ao número de vezes que há aproximações de filhotes. A relação entre os dois adultos foi mínima, uma vez que um dos comportamentos melhor observado foi a divisão de território realizado pelos adultos, onde o macho permanecia no topo e a fêmea nas partes mais baixas do cativeiro.
Durante a alimentação todos os Lobos Guará deslocavam-se até os tratadores. O macho aguardava apreensivo seu alimento ser, enquanto que a fêmea raspava e dava grandes saltos contra a grade. Ao apanharem um alimento, o macho distanciava-se brevemente para come-lo longe dos outros; e a fêmea permanecia no mesmo local a fim de ingerir mais alimentos.

CONCLUSÃO
Pode-se notar que a fêmea ainda cumpria seus papeis parentais, não se mostrando excessivamente agressiva; enquanto que o macho também não se mostra assumindo grandes papeis no cuidado parental da prole.
A divisão do cativeiro entre os adultos pode ocorrer pela característica individual de cada indivíduo, uma vez que a região inferior possui visão para a via de acesso dos tratadores, e a área superior possui um maior grau de coberturas visuais. O simples fato destes animais serem territorialistas por natureza ou o cuidado biparental relacionado à vigia da prole, também podem ser um indicativo desse comportamento.
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