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Avaliação do desempenho reprodutivo de Perdiz (Rhynchotus rufescens) em Zoológicos brasileiros durante o período 1991/2001.

PEIXOTO, J. E. I & TISCHER, M. C. II
Parque Ecológico Mourão, Av. Taufic Nacif Mansur 12, 13613-331 Leme, São Paulo, Brasil. E-mail: peixoto@spzoo.org.br
Rua José Lopes Silva255, 13610-530 Leme, São Paulo, Brasil. E-mail: mrtischer@ig.com.br

REVISÃO DA LITERATURA

A Rhynchotus rufescens (Figura1) é um Tinamídeo brasileiro, popularmente conhecido por perdiz ou perdigão, encontrado abundantemente em regiões campestres, cerrados, buritizais e planaltos descampados (SICK, 1997), do norte da Bolívia ao leste do Brasil, de sul a leste do Paraguai e no nordeste da Argentina e Uruguai em épocas passadas (DEL HOYO, 1992), hoje a pressão sofrida pela caça e destruição do seu habitat apresenta significativa redução em sua distribuição geográfica.

FIGURA 1 - Exemplar da espécie Rhynchotus rufescens. (DEL HOYO, 1992).

Seu período reprodutivo ocorre de agosto à março, e tem como característica a vocalização dos machos, um piado peculiar bastante conhecido, o qual antecede o período fértil em um ou dois meses. O sistema de acasalamento é classificado por alguns autores como poliândrico (CRAVINO, s.d.; MENEGHETI, 1981; FOWLER, 1986). Os ovos são de cor vinácea ou chocolate violáceo, tido como os mais belos que se conhecem, sendo brilhantes e parecidos com porcelana. Tal coloração é desbotada em poucos dias, motivo pelo qual há tanta divergência na descrição da cor de seus ovos (SICK, 1997).

Sistemas de Acasalamento

O conjunto de estratégias e interações sociais que ocorrem entre os indivíduos de uma população e formam um contexto dentro do qual tem lugar a união de gametas se denomina sistema de acasalamento (CARRANZA, 1994), dinamicamente, o acasalamento é a acepção de duas fases sucessivas na reprodução, o pareamento e a cópula. Pode haver ainda uma terceira fase: a corte nupcial que se situa cronologicamente entre as duas já mencionadas (DAVIS, 1955).

Acredita-se que os sistemas de acasalamento dos vertebrados reflitam a competitividade por recursos, tais como a distribuição de alimento, os locais de reprodução e os parceiros em potencial. Estes recursos afetam diretamente os indivíduos dos dois sexos; alguns tipos desta distribuição dão a um dos sexos a oportunidade de possuir múltiplos acasalamentos, pelo controle de acesso a esses recursos ( EMLEN & ORING, 1977 ; ORING, 1982). CARNIO (1993) verificou fertilidade de 49,26%, nascimento de 25,7% e eclodibilidade de 52,13% realizando incubação artificial de ovos de perdizes, no período de 26 de agosto de 1991 a 30 de março de 1992, de um total de 475 ovos. Estes dados se contrapõem aos obtidos por BUMP & BUMP (1969) que observou 94,7% de fertilidade de ovos de perdizes em natureza. Quando incubados artificialmente a eclodibilidade, já CRAVINO (s.d.) não conseguiu repetir estes resultados em cativeiro, obtendo eclosão que variou entre 35 e 70%.

Os vertebrados sociais exibem uma das duas grandes categorias de sistema de acasalamento – monogamia ou poligamia. A monogamia refere-se a uma ligação de parceiros, entre um macho e uma única fêmea. O casal pode permanecer junto parte de uma estação reprodutiva, uma estação inteira ou por toda vida. A poligamia refere-se a uma situação na qual um indivíduo tem mais de um parceiro na estação reprodutiva

A monogamia é o sistema de acasalamento dominante entre as aves, mais de 90% (DEL HOYO et al., 1992). Nos sistemas de acasalamento monogâmicos ambos os pais participam normalmente dos cuidados com os filhotes; entre as espécies de aves monogâmicas 93% produzem filhotes altriciais (que demandam extenso cuidado parental).

A poligamia pode ser exibida pelos machos ou pelas fêmeas. Na poliginia um macho acasala-se com mais de uma fêmea, enquanto que na poliandria uma fêmea acasala-se com dois ou mais machos, um tipo menos freqüente de poligamia, onde as fêmeas após acasalar-se abandonam os machos e estes passam a cuidar dos ovos e filhotes (DEL HOYO et al., 1992).

A promiscuidade é o segundo sistema de acasalamento mais comum entre as aves, sendo uma mistura de poliginia e poliandria, na qual, ambos, machos e fêmeas acasalam-se com vários indivíduos diferentes. Apesar de sua relativa raridade, as espécies de aves promíscuas, poligínicas e poliândricas têm sido bastante estudadas, pois se espera que estes sistemas de acasalamento pouco usuais, possam revelar muito acerca dos mecanismos de evolução e seleção sexual (POUGH et al., 1999).

Alguns fatores do meio ambiente, por exemplo, recursos disponíveis, são os responsáveis pelo grau em que os indivíduos de um sexo podem monopolizar os de outro, frente aos rivais do próprio sexo, o que para ORIANS (1969) e EMLEN & ORING (1977) é o mesmo que dizer do potencial do meio para a poligamia.

A inversão de funções sexuais não determina que o sistema seja poliândrico, é a pré-adaptação óbvia para a evolução da poliandria simultânea e seqüencial (FAABORG & PATTERSON, 1981), onde a monogamia teria evoluído para a monogamia de dupla postura. Este tipo de acasalamento ocorre em momentos de abundância de alimento ou quando há falha na nidificação e significa que a fêmea emancipada da incubação que ficaria a cargo do macho, tem a oportunidade de fazer uma segunda postura, a qual incubará. Esta monogamia duplica o esforço reprodutivo do macho e da fêmea. A evolução prosseguiria até a poliandria seqüencial que significa que a fêmea copula com dois ou mais machos em sucessão e põe um conjunto de ovos. Desta poliandria haveria duas opções no caminho evolutivo: a poliandria simultânea e a poligamia múltipla de rápida postura. Na poliandria simultânea, a fêmea copula com vários machos simultaneamente e forma uma associação estável durante o processo de reprodução. Na poligamia múltipla de rápida postura, como descrito para algumas espécies de Tinamídeos, após a deserção da fêmea o macho pode retardar a incubação e permanecer sexualmente ativo, atraindo uma segunda companheira e tornando-se poligínico. A fêmea, por sua vez é poliândrica.

Apesar das dificuldades encontradas para se diferenciar os Sistemas de Acasalamento, ORIANS (1969) reconhece que há evidência de poliandria em cinco grupos taxonômicos, entre eles os Tinamidae, fato observado também por PIANKA (1974) que relata que ocorrem em algumas espécies de Jacanidae, Tinamidae e Rallidae. Todos estes grupos têm ao menos uma característica em comum: possuem jovens com um alto grau de independência em sua atividade desde o nascimento.

Para vários autores a poliandria é um sistema de acasalamento vantajoso por ter maior potencial reprodutivo. ORIANS (1969); BUMP & BUMP (1969) afirmam que a fêmea presumivelmente aumenta sua resposta reprodutiva se vários machos puderem ser induzidos a cuidar de seus ovos e filhotes, nesta situação a posição dos machos será desvantajosa, apesar de dentro da poliandria, normalmente serem os machos que se beneficiam, ao aumentarem o número de fêmeas com que se acasalam (CARRANZA, 1994).

Uma clara relação entre os sistemas de acasalamento e as variedades de dimorfismo sexual nas aves pode ser percebida (DEL HOYO, 1992). Em espécies monogâmicas os parceiros de sexos diferentes são normalmente semelhantes em tamanho e cor, e geralmente os papé is desempenhados por machos e fêmeas durante o cortejo são também comparáveis. Reciprocamente, quase todas as espécies poligâmicas apresentam dimorfismo, com um ou outro parceiro, sendo maiores e de cores mais intensas, invariavelmente os machos em espécie poligínicas, e as fêmeas em espécies poliândricas. Este é o resultado previsível de seleção sexual claramente imposto por estes sistemas de acasalamento.

Os Tinamídeos na América do Sul despertam interesse a algum tempo, em 1936 LIEBERMANN já citava que os Tinamídeos na Argentina eram predominantemente poliândricos, sistema de acasalamento depois confirmado por ORIANS (1969), que observou entre os tinamídeos a denominada inversão dos papéis que cada sexo costuma desempenhar, que SICK (1997) descreve como indivíduos de tinamídeos mudando de comportamento de acasalamento com a idade, onde, por exemplo, um macho de um tinamídeo andino apresentou-se como monógamo quando jovem e polígamo ao se tornar mais velho.

No sistema de acasalamento em Rhynchotus rufescens tem sido relatado um nítido aumento de reprodução pelo hábito da fêmea em acasalar-se com diferentes machos, sucessivamente, e a aceitação por parte do macho em incubar e cuidar da prole. Esta isenção da incubação e do cuidado da prole permite a fêmea reduzir o tempo necessário entre duas posturas sucessivas, devido à recuperação mais rápida de energias gastas durante um período de reprodução (MENEGHETI & MARQUES, 1981). Ao referir-se a Rhynchotus rufescens , LIEBERMAN (1936) considera a poliandria como uma adaptação eloqüente à reprodução rápida num curto período, já que mais de uma fêmea faria postura num mesmo ninho. Assim, mais rapidamente é atingido um número mínimo de ovos normalmente observados nos ninhos. A incubação se iniciaria mais rapidamente e, desta forma, os ninhos ficariam menos expostos a riscos.

A grande fecundidade e a poliandria estão relacionadas com a vida terrícola, além de ser uma defesa biológica contra os numerosos inimigos que as atacam. SICK (1997) também cita a eficiência do sistema de reprodução desta família, que pode ser comprovado pela abundância destas aves em áreas virgens ou quando não são perseguidas. Afirmando também que a poliandria é o caminho mais certo para uma multiplicação mais rápida.

Apesar das definições dos diferentes sistemas de acasalamento quanto aos hábitos sociais nota-se que há alguns Tinamídeos como, por exemplo, em Nothura maculosa , que apesar de ser considerada como uma espécie de hábitos solitários (SERIÉ & SMITH, 1923; HUDSON, 1928; LIEBERMAN, 1936; BUMP & BUMP, 1969), durante o período de reprodução encontramos pares de indivíduos (MENEGHETI, 1981), podendo estas observações ser utilizadas para se definir o período e a intensidade com que se dão os acasalamentos. Outras espécies de Tinamídeos podem apresentar comportamentos de grupo em época não reprodutiva, como é o caso de Eudromia elegans multiguttata (GALLARDO, 1984).

Bem Estar

As técnicas de criação como um processo de adaptação a uma condição artificiall (cativeiro), implica muitas vezes em negligência às necessidades básicas dos animais e desconsideração do repertório comportamental dos mesmos. A preocupação com o Bem Estar animal inaugurou novas linhas de estudo que levaram à obtenção de conhecimentos mais profundos sobre os mesmos, com pesquisas que podem fazer muita diferença num processo produtivo. Levando-se em consideração que o cativeiro, condição para a produção em escala de produtos ou subprodutos de origem animal pode levar os animais a situações de desconforto, induzindo-os ao estresse, com manifestações através de comportamentos de medo e/ou agressão. O fato dos animais em cativeiro serem mantidos em grupos maiores do que quando em situação de natureza, os induzem a um excesso de interações sociais (FRANÇOIS et al., 1998).

PARANHOS DA COSTA & CROMBERG (2001) citam que os animais possuem sistemas funcionais de controle que atuam na manutenção do equilíbrio do organismo, mantendo estável, por exemplo, a temperatura corporal, o balanço hídrico e as interações sociais. As constantes estimulações do meio agindo sobre os animais acionam esses sistemas, levando-os a buscar os recursos e os estímulos necessários para a manutenção de seu controle.

OBJETIVOS

Registrar a reprodução de Rhynchotus rufescens em zoológicos no Brasil no período de 1991 a 2001.

MATERIAL E MÉTODOS

Através de levantamento se utilizando do Censo de Animais em cativeiro, editado pela Sociedade Brasileira de Zoológicos, no período de 1991 a 2001, checamos os zoológicos que possuem em sua coleção esta espécie, levantamos a quantidade de animais em cativeiro e sua respectiva reprodução. Observando que não obtivemos os dados referentes ao ano de 1.995, ano este em que o citado Censo não foi publicado.

RESULTADOS E DISCUSSÂO

Analisando os dados obtidos chegamos à conclusão de que a reprodução de perdizes mantidas em zoológicos é bastante baixa, variando de 3,03 a 32,61%, em relação às perdizes mantidas.

A origem do estresse dos animais no atual sistema pode estar associada à impossibilidade dos animais executarem seu repertório comportamental, notadamente no que diz respeito à corte e acasalamento.

A criatividade na melhoria das instalações testadas por criadores, influindo assim no sistema de acasalamento dos animais, é um exemplo de como o desenho experimental pode ser delineado, uma vez que o método utilizado por MAGNANI (comunicação pessoal) que reproduz macucos (outra espécie de tinamídeo) muito bem, quando alocados em casais, com o mesmo não ocorrendo em grandes grupos. Ou então adotar a estratégia utilizada por AZEREDO (comunicação pessoal de MAGNANI), que reproduz bem os macucos mesmo em grupo, porém no recinto dos animais existem várias divisões, como se fossem labirintos, que são utilizados pelos animais em fuga quando agredidos por outros. O que pode ser considerado como uma solução interessante, por imitar o habitat natural destas aves (PEIXOTO, 2002).

Partindo do pressuposto de que não existem grandes problemas na alimentação dos animais em cativeiro, e do adequado estado de sanidade dos plantéis observados, esforços redobrados devem ser alocados, visando através de pesquisas aprimorarem um sistema de acasalamento que aumente a fertilidade dos ovos. Este sistema necessariamente deve privilegiar o comportamento do animal.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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