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VALORES DE NORMALIDADE DA SÉRIE VERMELHA PARA Phrynops geoffroanus (TESTUDINE: CHELIDAE), DE CATIVEIRO

Carlos Eduardo Saranz Zago 1 , Luis Dino Vizotto 1 , Classius de Oliveira 2 , Claudia Regina Bonini-Domingos 1

1-Laboratório de Hemoglobina e Genética das Doenças Hematológicas – UNESP- IBILCE – São José do Rio Preto – SP

2- Laboratório de Anatomia – UNESP – IBILCE

ceszago@yahoo.com.br

RESUMO

Os répteis sofreram grandes perdas de espécies desde a época em que dominavam a terra até os dias atuais. Os quelônios são pouco estudados, principalmente, quanto à composição hematológica. O presente projeto objetivou o estudo de uma população do cágado–de-barbicha - ( Phrynops geoffroanus ) mantida em cativeiro, em condições ideais, visando descrever os valores de normalidade da série vermelha para a espécie. O material de estudo foi fornecido pelo Criadouro Japurá em Tabapuã – SP, sendo constituído de 8 machos e 10 fêmeas, todos adultos pesando entre 0,6 e 3,9 Kg coletados entre junho e dezembro de 2004. As análises hematológicas incluíram métodos quantitativos e bioquímicos, não mostraram diferenças entre machos e fêmeas, em especial com relação ao hematócrito, hemoglobina e índices hematimétricos. Apenas na contagem de eritrócitos o valor dos machos foi maior que o valor obtido nas fêmeas, sendo essa diferença estatisticamente significativa. Para obter esses dados foram utilizados o Teste t para dados paramétricos e Mann Whitney para dados não paramétricos. Os valores obtidos nessa amostragem sugerem o perfil de normalidade para Phrynops geoffroanus em cativeiro, visto que a variação entre os valores se mantêm.

I- INTRODUÇÃO

A classe dos répteis surgiu há 200 milhões de anos e é constituída por lagartos, cobras, crocodilos, tartarugas e tuatara. Evoluíram dos anfíbios no Período Pensilvaniano, na Era Paleozóica. Na Era Mesozóica, os répteis se tornaram os animais dominantes na terra. Representam um grupo transitório na evolução dos vertebrados, estando entre peixes aquáticos, aves e mamíferos terrestres (Ernest; Barbour, 1989). Essa classe vem sofrendo grandes perdas de espécies no decorrer da sua história, pois das 16 ordens existentes no passado, restam apenas três: Chelonia, Crocodilia e Squamata, tendo sido as outras extintas (Orr, 1979).

São ectotérmicos, possuem pele escamosa e estão adaptados para vida em ambientes secos. Outra adaptação importante aconteceu com os ovos, que possuem casca calcária para retardar a perda de umidade, e membranas embrionárias (âmnio, córion e alantóide), diferente das presentes em peixes e anfíbios (Ernest; Barbour, 1989).

A ordem Chelonia é constituída por tartarugas, cágados e jabutis. A principal característica dessa ordem é o casco que reveste o corpo do animal, formado por carapaça (dorsal) e plastrão (ventral). Esses animais possuem diferentes habitats: espécies exclusivamente terrestres como os jabutis ( Geochelonia sp) ; espécies que vivem em ambientes fluviais e lacustres como os cágados ( Phrynops sp ); espécies exclusivamente marinhas como as tartarugas (Caretta caretta) , e ainda, espécies que vivem em ambientes terrestre e de água doce como a Aperema ( Rhynoclemmys punctularia ) (Garcia-Navarro; Pachaly, 1994).

Os cágados possuem carapaças baixas que oferecem pequena resistência ao deslocamento na água, e patas anteriores modificadas em remos auxiliando sua locomoção (Pough et al ., 1999). A Phrynops geoffroanus ou cágado-de-barbicha, como é popularmente conhecida, possui carapaça achatada e larga com coloração preta ou cinza esverdeada. O plastrão possui um entalhe anal e tem uma coloração vermelha rosada com manchas pretas irregulares. A cabeça é larga e lisa, com coloração preta, linhas brancas e irregulares. A parte inferior é branca com linhas e pontos pretos. A característica mais proeminente dessa espécie é uma linha preta e larga que se estende longitudinalmente pelo olho, também possui um par de “barbelas” no queixo com a extremidade preta, diferente da Phrynops hilarii onde as extremidades são brancas. Os membros são cinza com manchas brancas. É uma espécie pequena encontrada desde a Colômbia, Venezuela, Guiana, extremo sul do Paraguai até sudeste, centro-oeste e nordeste do Brasil. Essa espécie é freqüente nos rios, lagos e lagoas com correnteza lenta (Ernest; Barbour, 1989).

Os machos da espécie, tem em média 21 cm e as fêmeas 35 cm. A postura dos ovos ocorre entre novembro e fevereiro nos bancos de areia formados nas margens dos rios. Geralmente a postura é realizada a noite, mas quando não existe a ameaça de predadores começa depois das três da tarde. Em cada ninho é colocado de seis a dezoito ovos de coloração branca, esféricos, medindo entre 3 e 5 cm (Pritchard 1979; Pritchard,Trebbau, 1984).

Quando se objetiva a busca por informações do perfil hematológico e hemoglobínico dessa espécie de quelônio, poucos trabalhos são encontrados na literatura, ainda mais com relação à hematologia de animais brasileiros e sua relação com os aspectos fisiológicos e ambientais.

O sangue circulante dos répteis apresenta numerosas células primitivas. Nos quelônios a produção das células vermelhas está dividida entre o baço e a medula óssea. Com relação às células brancas é importante ressaltar a baixa quantidade de neutrófilos e um aumento dos eosinófilos e basófilos circulantes, além da presença de heterófilos, células encontradas nos répteis e nas aves, e inexistente nos mamíferos (Andrew, 1965; Frye, 1991).

Os eritrócitos são numerosos, com um ou mais núcleos irregulares e formato elíptico com cromatina nuclear espessa e densamente granular. No sangue periférico podem ser encontradas formas imaturas (Frye, Murphy1991).

II- JUSTIFICATIVA

São raros os trabalhos sobre o perfil hematológico em quelônios brasileiros, e objetivou-se no presente estudo, conhecer a morfologia e valores de normalidade dos eritrócitos e hemoglobinas entre os exemplares da espécie Phrynops geoffroanus proveniente de cativeiro.

III-OBJETIVOS

Traçar os valores de normalidade do eritrograma de Phrynops geoffroanus.

IV-MATERIAL E MÉTODOS

Foram analisados 18 exemplares adultos de Phrynops geoffroanus , separados por sexo sendo 10 fêmeas e 8 machos adultos com comprimento de carapaça entre 20 e 25 cm entre os machos e 23 a 33 cm entre as fêmeas. Os machos pesavam entre 0,6 – 1,9Kg e as fêmeas entre 1,5 – 3,9Kg, todos provenientes do criadouro Japurá de Tabapuã–SP. Todos os animais vivem em condições iguais em um cativeiro com área de banho e de descanso sendo alimentados com plantas aquáticas, ração e suplemento vitamínico e mineral.

As amostras de sangue foram colhidas por cardiocentese, acondicionadas em tubos contendo heparina como anticoagulante, e mantidas sob refrigeração até a utilização, que não excedeu 24 horas. Foram colhidos 3 a 5 mL de sangue total em frascos devidamente identificados.

Para realização da cardiocentese, o animal foi lavado em água corrente para retirar as impurezas encontradas no casco. Depois, foi colocado em decúbito dorsal, para a assepsia com álcool 70% e solução de iodo a 2%, em especial no local da perfuração, entre as placas umerais e as peitorais, no centro do animal. O orifício foi feito utilizando uma agulha com calibre de 40:12 marca BD Precision Glide R . O sangue foi coletado diretamente do coração, usando agulha com calibre 40:12 ou 50:12 marca BD Precision Glide R acoplada a uma seringa de 5ml marca BD Precision Glide r (Brites,2004). Após a coleta do sangue o orifício foi vedado com cola cirúrgica marca Vetband R e o animal mantido em observação por 72 horas antes de retornar ao seu ambiente.

Os métodos diagnósticos aplicados foram:

•  Hemograma (Garcia-Navarro; Pachaly, 1994).

O hemograma é um exame laboratorial que fornece dados quantitativos e qualitativos sobre os eritrócitos, leucócitos, plaquetas e hemoglobinas e está dividido em duas etapas, eritrograma e o leucograma. Para o presente estudo objetivaram-se os valores de eritrograma realizados por:

- Contagem de eritrócitos;

- Hematócrito;

- Dosagem de hemoglobina total circulante;

- Cálculos dos índices hematimétricos

Os índices utilizados foram o volume corpuscular médio (VCM) que indica o volume médio dos eritrócitos expresso em micra cúbicos ( m 3 ); a concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM) que índica o índice médio da porcentagem de hemoglobina por hemácia e, a hemoglobina corpuscular média (HCM) que indica a quantidade de hemoglobina. Calculados a partir dos valores de hemoglobina, hematócrito e contagem de eritrócitos.

V – RESULTADOS E DISCUSSÃO

Para a contagem de eritrócitos, em machos observou-se uma média de 8,3 10 5 com desvio padrão de 3246 e nas fêmeas 5,92 10 5 com desvio padrão de 1479, monstrando-se estatisticamente diferentes. Para obter este resultado foi realizado o Teste t apresentando um valor p > 0,05. Os valores das médias de hematócrito foram 23,25 com desvio padrão de 4,97 para machos e 19,80 com desvio padrão de 5,29 para fêmeas; para Hemoglobinas totais apresentaram média de 4,04 com desvio padrão de 0,97 em machos, e médias de 3,66 com desvio padrão 1,09 para fêmeas. Esses valores foram obtidos quando usou-se a unidade mM. Quando utilizou-se a unidade g% foram observados valores médios de 6,87 com desvio padrão de 1,65 nos machos e de 6,22 com desvio padrão de 1,85 nas fêmeas. Os valores de hemoglobinas e hematócrito obtidos estão de acordo com os valores encontrados na literatura para outros quelônios como a tartaruga terrestre Argentina Chelonoidis chilensis chilensis e a tartaruga verde Chelonia mydas . (Troiano, Silva, 1998; Wood, Ebanks,1984).

Os índices hematimétricos mostraram um valor de médio de 30 m 3 com desvio padrão de 7,67 para machos e 35 m 3 com desvio padrão de 6,91 nas fêmeas para VCM. O CHCM apresentou média de 17,30 m m 3 com desvio padrão 1,07 para machos e 18,40 m m 3 com desvio padrão de 2,38 para fêmeas. Quando utilizou-se o parâmetro percentual nesse índice os valores para média foi 29,43 com desvio padrão 1,82 nos machos e 31,29 com desvio padrão de 4,02 nas fêmeas. Para o HCM observou-se uma média de 0,55 m g com desvio padrão de 0,15 nos machos e 0,63 m g com desvio padrão de 0,12 nas fêmeas. A Tabela 1 mostra os valores médios obtidos em cada parâmetro avaliado, comparando-os entre machos e fêmeas.

Todos os resultados foram obtidos através dos testes estatísticos Mann Whitney no caso de dados não paramétricos e o Teste t no caso de resultados paramétricos. Na contagem de eritrócitos evidenciou-se uma diferença entre os valores para machos e fêmeas, com a utilização do teste t no caso de resultados paramétricos com o valor p > 0,05. As diferenças observadas estão ilustradas na figura 1.

Foi observado também a presença de eritrócitos bilobulados no sangue periférico de alguns animais. Os valores médios dos parâmetros hematológicos específicos do eritrograma não mostraram diferenças significativas entre machos e fêmeas, com exceção da contagem de eritrócitos.

Conclui-se então que os valores podem ser utilizados em conjunto para traçar o perfil de normalidade da espécie em questão, obtida de animais de cativeiro.

Tabela1: Valores do eritrograma de machos e fêmeas de Phrynops geoffroanus.

Macho

Fêmea

Hematócrito (%)

Hemoglobina (mM)

Hemoglobina (g%)

Contagem de Hemácias ( m l)

VCM ( m 3 )

CHCM ( m m 3 )

CHCM (%)

HCM ( m g)

23,25 ± 4,97

4,04 ± 0,97

6,87 ± 1,65

8,3 10 5 ± 3246

30 ± 7,67

17,30 ± 1,07

29,43 ± 1,82

0,55 ± 0,15

19,80 ± 5,29

3,66 ± 1,09

6,22 ± 1,85

5,92 10 5 ± 1479

35 ± 6,91

18,40 ± 2,38

31,29 ± 4,02

0,63 ± 0,12

•  Índice significância estastística valor p<0,05 (teste t )

 

Figura1: Distribuição dos valores médios de eritrócitos em machos e fêmeas de Phrynops geoffroanus.

 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ANDREW, W. 1965. Comparative Hematology , ed. Grune & Stratton – New York and London, p. 122-126 .

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ERNEST,C.H.; BARBOUR, R.W. 1989. Turtles of the World , Washington D.C.: Smithsonian Institution Press p. 29-30, 182-183, 209-210.

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GARCIA-NAVARRO, C.E.K; PACHALY, J.R. 1994. Manual de Hematologia Veterinária , 1.ed. São Paulo: Livraria Varela Ltda., p. 69-71, 123-132.

ORR, R. T.1986. Biologia dos Vertebrados . 5. ed., São Paulo: Livraria Rocca Ltda, p. 95, 508.

POUGH, F. H; HEISER, J. B.; MCFARLAND, W. N.1999. A Vida dos Vertebrados , 2 ed., São Paulo: Atheneu Editora, p. 356.

PRITCHARD, P.C.H.1979. Encyclopedia of Turtle , ed. T. F. H. Publication Ltda., p. 179-183, 752-755.

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