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Levantamento da Comunidade de Aves de Vila Dois Rios, Ilha Grande, RJ
A. C. Martinez, J. S. Calvano, L. R. Batista, N. D. Santos e P. R. V. Silva 1
Faculdade de Formação de Professores/UERJ, DCIEN, Francisco Portela, 794
CEP 24435-000, São Gonçalo, Rio de Janeiro, Brasil
1 Alunos de Licenciatura Plena em Ciências Biológicas da Faculdade de Formação de Professores da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Introdução
Uma das áreas de Mata Atlântica do Estado do Rio de Janeiro com amplo interesse em conservação é a Ilha Grande, que representa um laboratório natural para estudos ecológicos. A região da Ilha possui diferentes Unidades de Conservação como o Parque Estadual da Ilha Grande, o Parque Marinho do Aventureiro, e a Reserva Biológica da Praia do Sul (ALVES, 2001). Apesar de tantas áreas protegidas, a Ilha Grande sofre intensa pressão antrópica, devido principalmente ao turismo.
Esta pesquisa é parte de um projeto que envolve as disciplinas Ecologia III e Zoologia VI da Faculdade de Formação dos Professores da UERJ, que vem desenvolvendo, a partir do primeiro semestre de 2004, um levantamento da diversidade de aves de diferentes ambientes de Vila Dois Rios, Ilha Grande.
O nosso interesse é conhecer um pouco da dinâmica da comunidade de aves da região e espera-se que as informações aqui contidas possam corroborar no conhecimento da biodiversidade da Ilha Grande, inclusive suas espécies endêmicas e ameaçadas de extinção, para que possam ser estabelecidas áreas prioritárias para conservação.
Metodologia
As observações das aves em Dois Rios compreenderam os períodos de 15-17 e 22-24 do mês de outubro. As atividades eram realizadas através de um tempo de 1 hora de observação, no período da manhã (das 8:30 às 9:30) e da tarde (das 16:30 às 17:30).
Os alunos foram divididos em quatro grupos, cada grupo dirigia-se para uma dos ecossistemas caracterizados abaixo:
_ Mata – o início da mesma, onde foi encontrado o primeiro resquício de uma vegetação densa de Mata Atlântica, o local pode ser caracterizado como bastante fechado e heterogêneo;
_ Vila – constitui o local de moradia dos habitantes, que sofre maior pressão antrópica e a região encontra-se cercada pela vegetação;
_ Campo – localizado ao lado do CEADS, área composta por gramíneas de pequeno porte, é um ecossistema bastante exposto a fatores físicos como ação de ventos e exposição ao sol;
_ Rio/praia – próximo ao CEADS, encontro do rio com a praia. Ambiente estuarino e exposto ao vento, que engloba faixa de areia (praia) e montanhas cobertas pela vegetação.
Foi realizado rodízio das áreas estudadas, de maneira que cada grupo observava duas áreas diferentes por dia. Com o auxílio de binóculo, as aves eram observadas e as suas cores reproduzidas em desenhos previamente copiados, com a ajuda de lápis de cor. Eram anotadas as quantidades de indivíduos presentes; o comportamento; o local onde o animal encontrava-se e o nome vulgar, quando se sabia. Uma atenção especial era dada ao bico e às patas, já que estes são importantes caracteres taxonômicos das aves.
Ao final da observação, as aves foram identificadas através de bibliografia especializada (ANDRADE, 1997; IBECC, 1984; HÖFLING & CAMARGO, 2001; e SOUZA, 1998). Posteriormente foi montada uma tabela comparativa, contendo o número de espécies e os hábitats onde foram avistadas. Há de se destacar que o comportamento também foi registrado, contudo não será objeto de análise deste trabalho. Para análise ecológica das diferentes comunidades de aves, os seguintes parâmetros foram calculados: riqueza de espécies, número total de indivíduos por área, índice de abundância ( l = å pi 2 ) e de diversidade (1- å pi 2 , onde pi é a proporção de espécies dentro de cada comunidade ) de Simpson, e índice de Similaridade de Jaccard.
Jaccard = c
![]()
S1+S2-c
Onde:
c = número de espécies comuns a duas comunidades
S1 = número de espécie da comunidade A
S2 = número de espécie da comunidade B
Resultados
Compilando os dados obtidos das observações em campo, foram encontrados um total de 614 indivíduos, representantes de 35 espécies. A região que apresentou maior riqueza específica foi a Vila, com 24 espécies; sendo seguida pelo Campo, 18 espécies; Praia, 11; e Mata, 10. Fazendo-se uma análise mais qualitativa das comunidades foi constatado que as espécies de maior abundância relativa foram, de acordo com seus ambientes:Vila – Coragyps atratus (90 indivíduos), Passer domesticus (43), Notiochelidon cyanoleuca (35); Mata – Coragyps atratus e Pitangus sulphuratus (10), Tyrannus melancholicus (5), Hirundinea ferruginea (4); Campo – Passer domesticus (18), Notiochelidon cyanoleuca (15), Sporophila caerulescens e Pitangus sulphuratus (10); e Praia – Coragypus atratus (58), Machetornis rixosus (35) e Notochelidon cyanoleuca (14). Apenas 3 espécies Coragyps atratus, Notiochelidon cyanoleuca e Pitangus sulphuratus , foram observadas em ambas regiões. E 15 das 35 espécies, foram restritas a um determinado ambiente.
O número total de indivíduos por área foi o seguinte: Vila – 317 indivíduos, Mata – 40, Campo – 121 e Praia – 136. Os índices de abundância obtidos foram: Vila = 0,134, Mata = 0,161, Campo = 0,078, Praia = 0,263. E os de diversidade,Vila = 0,866, Mata = 0,839, Campo = 0,922, Praia = 0,737. O índice de similaridade de Jaccard apontou maior aproximação entre os ambientes: Vila-Campo = 40%, seguido por Mata-Praia = 31,3%, Mata-Campo = 27%, Campo-Praia = 26,1%, Vila-Praia = 25%, Vila-Mata =17,2%.
Conclusão
Neste trabalho pode-se perceber a diversidade da avifauna de Vila Dois Rios. Pois verificou-se que seus diferentes ecossistemas comportam uma representável riqueza de espécies, visto que em apenas 12 horas de observação (equivalentes aos seis dias de trabalho de campo), foram identificadas 35 espécies de aves.
Pode-se perceber que houve uma grande discrepância no número total de indivíduos dos diferentes ambientes analisados. A vila apresentou o maior número de indivíduos (317), além de maior riqueza específica (24 espécies), isso era de se esperar, visto é um local que possui maior disponibilidade de alimentos. Há de se ressaltar que apesar de existirem casas, o local é bem preservado, possuindo grande número de árvores. O campo e a praia apresentaram números totais de indivíduos aproximados (121 e 136, respectivamente). Já na mata, um número bem inferior foi observado (40 indivíduos) uma das razões pode ser a difícil visualização, pelo fato das árvores serem altas e os indivíduos encontravam-se muitas vezes nas copas, além de utilizarem a mata como um meio para se camuflarem.
Pode-se perceber que poucas espécies, como Coragyps atratus , Notiochelidon cyanoleuca e Pitangus sulphuratus podem ser consideradas generalistas, já que possuem distribuição extensa, ou seja, em todos os ambientes observados. Uma espécie em especial, Coragyps atratus , obteve maior representatividade, totalizando 159 observações. Essa espécie pode ser considerada dominante, já que possuem um alto grau de abundância (Ricklefs, 2001). Convém salientar a importância ecológica deste táxon, já que é um predador, sendo a espécie topo da teia alimentar desses ecossistemas.
Algumas limitações metodológicas podem estar restringindo os dados obtidos, pois por exemplo, um mesmo indivíduo pode ter sido visto mais de uma vez e ter sido contabilizado como se fosse outro. Para que os dados fossem mais consistentes, seria necessário também um maior tempo de permanência no campo. Contudo espera-se que através deste projeto de levantamento de avifauna, a diversidade da Ilha Grande possa ser melhor conhecida. Pois muitas espécies encontradas lá podem estar correndo risco de extinção, por causa da destruição de hábitat, caça, comércio ilegal, introdução de predadores ou competidores. E, particurlamente no Rio de Janeiro, a destruição e fragmentação da Mata Atlântica são a principal ameaça para a maior parte da avifauna nativa.
Bibliografia
ALVES,M.A.S. Estudos de ecologia de aves na Ilha Grande, Rio de Janeiro. In: Ornitologia e Conservação: de ciência às estratégias. Editora Unisul, Santa Catarina.
ANDRADE, M. A . 1997. Aves silvestres. Editora Littera Maciel, Belo Horizonte.
IBECC. Aves Urbanas. 1984. FAPESP, SÃO PAULO.
HÖFLING, E. & CAMARGO, H. F. A . 2001. Aves no campus , Edusp: 3º edição revisada e ampliada, São Paulo.
RICKEFS, R. Economia da Natureza . 2003. Guanabara Koogan. Rio de Janeiro.
SOUZA, D. Todas As Aves do Brasil .1998. ED DALL, BAHIA.
Sites Consultados: